O que você sempre quis saber sobre dentes sensíveis

Se ao tomar aquele delicioso sorvete na Bacio di Latte ou um café quentinho da sua mãe te deixa angustiado com dentes sensíveis ou, até mesmo, ao bochechar água você chega a sentir algumas fisgadas, você tem um problema muito comum que nós dentistas chamamos de hipersensibilidade dentária. Em setembro de 2015, lancei um dos artigos mais lidos do site abordando de forma geral o tema. Você pode lê-lo clicando em Estou sentindo dor de dente. Hoje, falaremos tudo o que você sempre quis saber à respeito da sensibilidade dentária. Vamos lá.

Dentes sensíveis: Entendendo e explorando sua estrutura

O dente é uma estrutura viva formada por esmalte, dentina e polpa dentária. O esmalte, a parte mais externa do dente e mais dura de todo o corpo humano, envolve toda a parte do dente visível dentro da boca, quando em condições normais e ideais. Para ilustrar, veja no exemplo abaixo essa situação ideal da coroa clínica, a parte visível do dente na cavidade bucal.

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Na coroa clínica ideal, o esmalte envolve todo o dente e não existe exposição do limite e das partes radiculares.

Dentes sensíveis não estão condições normais e ideais

Nem sempre as pessoas possuem os dentes em condições normais e ideais. Às vezes, o dente está cariado e nessa região não existe esmalte ou o paciente possui problemas periodontais que mostram as outras partes do dente.

E que partes do dente são essas?

Essas outras partes do dente são as raízes, a furca, a junção amelocementária, a polpa e a dentina.

Para ficar bem fácil de entender, você poderá ver, na figura abaixo, todas as partes separadas e com os seus devidos nomes.

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O dente é dividido em coroa e raiz. O limite entre essas partes é a junção amelocementária.
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Em corte longitudinal, nota-se os locais do dente ocupados pelo esmalte, dentina, cemento e polpa.

Você deve ter percebido que o esmalte é uma parte muito pequena comparado à dentina. É verdade… O esmalte tem uma função de proteger a dentina que se localiza logo abaixo. Você poderia comparar a função do esmalte  com a da casca do ovo protegendo a clara e a gema. O esmalte sozinho não sente dor, ele é, por natureza, insensível. Então, dentes que possuem esmalte íntegro são menos propensos a serem sensíveis à agua gelada ou bebidas e comidas quentes, por exemplo.

Diversas vezes, algum dente não possui o esmalte integro. A cárie, por exemplo, quebra a continuidade do esmalte e expõe a dentina e, às vezes, a polpa dental ao meio bucal.

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Um dente cariado frequentemente não apresenta esmalte íntegro e contínuo.

Diferente do esmalte, a dentina possui estruturas vivas que respondem com dor. Essas estruturas presentes na dentina são prolongamentos de células, os odontoblastos, originários da polpa e invisíveis a olho nu, que ao serem estimulados pelo frio ou calor podem responder intensamente e causar bastante desconforto.

Evitando danos ao esmalte e a sensibilidade dentária

Para que a cárie não ocorra é extremamente importante que você escove adequadamente seus dentes. Existem técnicas adequadas de escovação muito melhores do que o movimento de vai e vem com a escova que a maior parte das pessoas faz e você pode aprender como escovar corretamente clicando aqui. Além de prevenir a cárie, escovar de forma adequada é importante para prevenir o desgaste exagerado do dente e a retração da gengiva. Esses dois fatores também são causas da hipersensibilidade dos dentes.

A relação entre escovação e dentes sensíveis

Grande parte das pessoas aprende a escovar os dentes vendo outras pessoas escovarem. Às vezes, aprendem de uma forma não tão boa. Não é culpa delas… Muitas vezes, simplesmente, não foi apresentado para essas pessoas uma técnica melhor. Acontece que a escova aliada ao abrasivo presente nas pastas de dente e à força exercida para escovação podem prejudicar e muito a saúde do dente.

Estranho não é?

Acontece que esse hábito, realizado várias e várias vezes, desgasta o esmalte cada vez mais e mais. Demora, mas acontece… E pode ser que chegue a desgastar a dentina também. É muito comum o paciente nos dizer que existe um “desgaste no dente parecido com corte de faca”.

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A abrasão dentária é uma frequente causa de sensibilidade nos dentes. Utilizar uma técnica de escovação adequada é de grande valor na prevenção desse tipo de lesão.

Você deve ter concluído, com razão, que casos assim são muito mais propensos à sensibilidade dentária. Portanto, é de muita importância que além de escovar os dentes de maneira correta, a pessoa não use pressão demasiada na escova.

Relembrando algumas dicas sobre escovação:

escova-de-dente-macia-lopes-odontologiaUse escovas de cerdas macias

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escovar-dentes-com-muita-forca-errado-lopes-odontologiaNão utilize força excessiva

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escovar-dentes-em-cima-primeiro-lopes-odontologiaComece escovando a parte oclusal, ou seja, a parte de cima dos dentes.
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escovar-os-dentes-parte-da-frente-lopes-odontologiaEm seguida, escove a parte da frente.

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escovar-os-dentes-parte-lingual-por-ultimo-lopes-odontologiaFinalmente, escove a parte lingual.

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usar-fio-dental-lopes-odontologiaUsar fio dental

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Relação entre a gengiva e dentes sensíveis

A gengiva saudável é lisa e com alguns pontilhados que lembram a textura de casca de laranja, de coloração roséa-avermelhada e se o paciente for negro/moreno pode apresentar alguns locais de coloração amarronzada. Além disso, ela não sangra e nem dói espontaneamente, está firmemente aderida ao dente e ao osso da região maxilar e mandibular e não parece inchada, ou seja, não apresenta edema.

Uma gengiva saudável apresenta-se, geralmente, da seguinte forma:

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Dentistas costumam dizer que a gengiva saudável tem textura de casca de laranja.

Por algum motivo de descuido, algum alimento que tocou fortemente a gengiva ou por trauma mecânico, a gengiva pode se apresentar, transitoriamente,  fora da normalidade e com algum dos sinais da inflamação. Chamamos esse quadro de gengivite. Tão logo o estímulo seja removido, a gengiva volta ao seu aspecto normal. Contudo, se a duração do estímulo é de várias semanas ou meses, alguns microrganismos começam a se instalar dentro de um espaço que não era para ser ocupado por eles. Nosso corpo tenta, naturalmente, eliminar esses agentes estranhos, mas a própria tentativa de eliminar esses microrganismos faz com que as estruturas gengivais e ósseas próximas a esses microrganismos sejam danificadas em alguma intensidade. Esse quadro já não é a gengivite, mas a periodontite.

Você certamente já ouviu alguém dizer que a gengiva dele subiu ou desceu. O que ocorreu com essa pessoa é que esse processo de invasão dos microorganismos foi suficiente para danificar a gengiva e o osso alveolar irreversivelmente. Em casos mais graves fica da seguinte forma:

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Sim. Infelizmente, não vai voltar a ser exatamente como era… Cirurgicamente, por meio de um enxerto gengival, pode ser feito uma correção e o defeito ser mascarado.

[…] mas não deixem ficar assim não 😥

Acontece que a parte radicular do dente é mais porosa e permeável que a parte que há esmalte. Além disso, a polpa dentária está mais próxima da parte exterior do dente quando comparamos a raiz com o esmalte. Como assim? Vamos voltar àquela foto do dente pela metade.

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Veja que existe mais estrutura dentária na parte coronal do que na parte radicular. Isso significa que é muito mais fácil que uma mudança de temperatura ocorra com mais facilidade por meio da parte radicular que da coroa.

E… Sabe como o dente reage a uma mudança acentuada de temperatura? Se você respondeu “com dor”, você está absolutamente correto.

Sensibilidade em dentes restaurados

Talvez você esteja se questionando: “Mas eu não tenho nada disso… Meu caso é que o dentista fez uma restauração e agora o dente está sensível!”

Acontece… Para não entrar em termos demasiadamente técnicos, posso te avisar que existem três situações nas quais isso ocorre:

  1. Alguma parte da restauração fraturou, mesmo que seja bem pequena;
  2. A restauração de resina apresenta falha adesiva;
  3. Você tem mais que uma restauração de amálgama na boca e existe uma corrente galvânica entre os dentes.

Por acaso algum desses motivos te é familiar?

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Uma das causas frequentes de sensibilidade são restaurações com margens fraturadas.

Bem… Se a restauração apresenta alguma fratura, a melhor alternativa seria fazer o seu reparo. Dependendo do tamanho dessa fratura será necessário refazer toda a restauração. Se o dente quebrou junto, sugiro que você procure seu dentista para ele te indicar o melhor tratamento. Não espere muito não… Conselho de quem te quer bem.

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Restaurações com falhas adesivas parecem satisfatórias, mas devem ser trocadas.

Na nossa segunda alternativa, uma restauração de resina foi confeccionada nos seus dentes. Você não está sentindo que ela ficou alta, mas mesmo assim o dente está sensível. Visualmente, ela parece perfeita, mas toda vez que você mastiga ou toma água gelada, dói. Muito provavelmente ocorreu falha adesiva e alguma parte da resina se descolou do dente o suficiente para que a água penetrasse entre a restauração e a estrutura dental. A correção é feita, geralmente, com uma nova restauração.

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Como nossa terceira alternativa e não menos importante, temos a corrente elétrica gerada entre duas restaurações de amálgama. Temos várias alternativas para resolver isso. Aplicação de dessensibilizantes à base de fluoreto de potássio ou oxalato de potássio, confecção de película contendo flúor, troca da restauração com maior proteção pulpar ou com outros materiais restauradores que não sejam amálgama.

Detalhes que produzem dentes sensíveis

Para fechar com chave de ouro os motivos da sensibilidade, convido você a notar uma dimensão que até então você não sabia que existia. E, se até aqui você se questionou “nossa, quanta coisa“, saiba que tem mais. É quase invisível… É o detalhe do rodapé da matéria do jornal que ninguém lê.

Se você não possui nenhuma das causas que foram expostas até agora, ainda existem duas últimas situações que podem existir. Essas situações são:

  1. Trincas no esmalte
  2. Pequenas fraturas de esmalte

É mais difícil de se notar, mas o seu dentista vai estar atento a isso. De forma geral, uma trinca de esmalte é melhor detectada quando o dente está seco ou por transiluminação. Não existe perda de estrutura dentária, mas um pequeno gap, ou seja, um espaço, mais propício à permeabilidade de substâncias que podem causar sensibilidade nos seus dentes.

Veja na imagem abaixo um exemplo

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Em uma trinca de esmalte não há perda de estrutura dental, mas pode contribuir para sensibilidade dentária.

Quando não são as trincas, podem ser pequenos pedaços, lascas de esmalte que foram perdidas durante a mastigação ou pelo bruxismo. Caso ocorra exposição da dentina, é mais provável que ocorra sensibilidade nesse dente.

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Dentes com fraturas de esmalte são mais propensos à hipersensibilidade.

Todas essas coisas, como você percebeu, atuam expondo as partes internas do dente ao agente que provoca a dor.

O momento mais esperado de todo o artigo provavelmente é esse… Vamos nos ater agora às formas de redução dessa sensibilidade.

Como tratar dentes sensíveis

Existem duas formas de você tratar o problema: eliminando a causa e/ou tratando os sintomas. Gosto sempre dessa abordagem para criar um contraste à cultura de tratamento de sintomas que existe no nosso país. Tratar os sintomas não significa que irá eliminar o problema, mas apenas mascarar as consequências.

Para tratar a causa nós temos as seguintes alternativas:

  1. Eliminar o hábito ou agente álgico: isso inclui você parar de escovar o dente com força exagerada e tomar água, sorvete, café quente, ou seja, parar de consumir ou fazer coisas que liguem o gatilho da dor. Obviamente, essa estratégia não vai funcionar para sempre, mas você pode utilizá-la caso não encontre alternativa melhor naquele momento.
  2. Proteger as estruturas internas do dente novamente: definitivamente essa é a melhor estratégia. Caso seu dente tenha perdido uma parte do esmalte ou da restauração, procure um profissional que você confie para realizar o procedimento. Devo te lembrar que às vezes a restauração pode incluir a confecção de uma prótese fixa unitária, tambem chamada de coroa, por exemplo. Outra possibilidade de tratamento são os enxertos gengivais naquelas pessoas portadoras de problemas gengivais.
  3. Tratamento endodôntico: é uma solução radical que deve ser deixada como última alternativa, visto que tornará o dente não-vital. Deve ser escolhido apenas se todas as outras alternativas não tiverem sucesso.

Tratar os sintomas não é a coisa mais eficiente, mas, ainda assim, resolve. Para isso nós temos as seguintes opções:

  1. Uso de analgésicos sistêmicos: é a pior escolha, na minha opinião. Extremamente ineficiente por ser algo temporário, além de administrar algo que circula em todo o corpo para tratar um pequena porção dele com uma quantidade de efeitos adversos relativamente grandes para o benefício causado. Um ponto importantíssimo é o alívio dos sintomas é temporário. Há um agravante, o indivíduo que estava sofrendo de dor tem um alívio psicológico e, quase sempre, passa de uma situação onde se preocupava com a dor para uma situação onde acredita que ela não irá retornar. O que ocorre de fato é que, terminado o tempo de ação do medicamento, a dor retorna, o paciente volta a medicar-se e repete esse tratamento paliativo até que ele para de surtir efeito.
  2. Uso de pastas dessensibilizantes: essa alternativa é muito mais inteligente que o uso de analgésicos sistêmicos, visto que o dessensibilizante atua no dente. Além de não possuir os efeitos colaterais do uso de analgésicos. Não é o foco desse artigo, mas dê preferência por pastas que contenham algum dos seguintes agentes dessensibilizantes: fluoreto de potássio, fluoreto de estanho, fosfosilicato de cálcio e sódio e arginina. Evite pastas contendo estrôncio.
    […] e por fim…
  3. Uso de géis dessensibilizantes: o mecanismo de ação é idêntico ao das pastas dessensibilizantes. A diferença é que os géis são destinados a uso profissional e geralmente utilizados com uma moldeira de silicone semelhante àquela usada para clareamento dental. O período de utilização é reduzido e o tratamento preventivo é aconselhado a ser feito periodicamente.

É um assunto um pouco extenso não é mesmo? Acredito que você tenha imaginado que era algo bem simples, mas nem sempre é assim. Agora que você leu, me conta… Você gostou? Se sim, dê uma curtida no artigo e compartilhe no Facebook, Twitter ou Google com seus amigos. Além de demonstrar sua gratidão e me incentivar a produzir mais, isso faz com que outras pessoas se beneficiem das informações também!

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