Guia prático de remoção de guta percha

Fala pessoal, o artigo de hoje irá abordar a remoção de guta percha em dentes tratados endodonticamente, uma situação em que os dentistas e endodontistas passam e que pode ser um pouco complicada dependendo da familiaridade do profissional com a mecânica endodônticda e características do dente. A remoção de guta percha em dentes tratados endodonticamente é o primeiro passo para um retratamento eficaz.

Vamos lá… Para isso, iremos usar um artigo recente da revista Nature que descreve um tutorial, passo a passo, para a remoção de guta-percha em dentes tratados endodonticamente. O artigo pode ser encontrado aqui e o texto e as fotos são de total autoria, mérito e crédito dos pesquisadores S.S Virdee e M.B.M. Thomas.

Guia prático de remoção de guta percha durante o retratamento endodôntico

Em resumo

Descreve uma abordagem gradual parao acesso endodôntico através de dentes extensivamente restaurados.

Descreve uma abordagem gradual da remoção de guta percha em canais endodônticamente obturados.

Familiarizar clínicos às brocas Gates Glidden, limas Hedstrom, limas tipo K, solventes endodônticos e as características que as tornam ideais para remoção da guta percha.

O retratamento endodôntico pode ser uma tarefa desafiadora que pode levar a várias complicações se não for realizado com cautela. Muitas dessas complicações giram tem torno de conseguir acesso à câmara pulpar através de uma coroa extensamente restaurada e o remoção de material de preenchimento radicular residual, sendo o mais comum a guta percha (GP), em canais obturados. Isso pode ser muitas vezes um processo desordenado e demorado que coloca os dentes em um grande risco de lesão iatrogênica e impede o clínico de alcançar a desinfecção química necessária necessária para eliminar a doença periapical persistente. Portanto, o presente artigo visa a ajudar os clínicos, particularmente aqueles que não estão acostumados com o acesso e remoção de guta percha em dentes endodonticamente tratados. A abordagem sistematicamente descrita é acessível na clínica geral, onde a grande maioria dos tratamentos endodônticos são realizados, necessita de equipamentos básicos e com a correta experiência pode ser aplicado tanto em canais retos ou curvos. Ao completar esta etapa inicial do retratamento, a desinfecção química subsequente, a qual é crítica para o sucesso, pode ser realizada a um padrão mais elevado reduzindo o risco de reinfecção.

Introdução

O Índice Restaurador de Necessidade de Tratamento reconhece o retratamento endodôntico sendo uma categoria de complexidade mais elevada comparado à terapia endodôntica primária1. Isso é refletido pelo baixo índice de sucesso em alguns, mas não todos, estudos e que alcançar resultados previsíveis mesmo entre clínicos mais experientes pode ser desafiador2. O exigente processo de obter acesso através de extensas restaurações coronárias e debridamento do conteúdo de canais radiculares obturados, mais frequentemene com guta percha (GP), certamente contribui para esta dificuldade.3,4 Isso pode ser um processo desordenado e demorado que coloca o dente em um grande risco de lesão iatrogênica e impede a desinfecção química completa.

Portanto, o presente artigo visa ajudar o clínico, particularmente aqueles não estão familiarizados no acesso e remoção de guta percha de dentes endodonticamente tratados.

Indicações para o retratamento

O objetivo do retratamento endodôntico não-cirúrgico é aliviar os sintomas do paciente e reestabelecer a saúde dos tecidos periapicais após a falha da terapia inicial através da remoção dos materiais do espaço do canal radicular, desinfecção química e, se presentes, solucionando deficiências de origem patológicas ou iatrogênicas.5 Isto é indicado em dentes com lesão periapical persistente radiograficamente visível, com ou sem sintomas; na presença de obturação radicular ou selamento coronário inadequado6. Adicionalmente, se a obturação inicial permite infiltração marginal (ou seja, espaço vazio), o tratamento eletivo pode ser necessário antes de um clareamento dental endógeno para minimizar o risco de reabsorção radicular.6,7

As complicações associadas são similares a aquelas do tratamento endodontico primário, contudo a infecção ainda pode persistir caso a guta percha não seja adequadamente removida, pois ela atua como barreira a desinfecção química.2 Os dentes também estão mais susceptíveis a iatrogenias como perfuração, fratura de lima ou dano irreversível à restauração coronária que o paciente já se acostumou.2 Portanto, é importante discutir esses detalhes com os pacientes para obter consentimento esclarecido.8

Infecções apicais persistentes

Fonte intra-radicular

O comprimento da guta percha e sua condensação, embora não deem nenhuma informação do regime de irrigantes previamente utilizados, contém os valores prognósticos e são considerados recursos que ajudam a determinar se o tratamento inicial foi completado em uma padrão satisfatório. 6,9 Obturações radiculares que são pobremente condensadas ou não se estendem ao ápice ainda podem abrigar bactérias residuais que escaparam do debridamento químico-mecânico inicial.10 Essa falta de desinfecção, que é crítica para o sucesso, tende a ser a causa mais comum de infecção apical persistente após a terapia endodôntica inicial.10

A periodontite apical ainda pode persistir mesmo após o desbridamento e obturação satisfatória, enquanto aqueles feitos em padrões mais baixos podem ter resultados maiores que o esperado.11 Este fenômeno tem sido diretamente associado diretamente com a qualidade do selamento coronário, que está consistentemente demonstrado ser um fator prognóstico tanto em tratamentos endodônticos primários e secundários.2,9-12 As pesquisas demonstram que restaurações coronárias resistentes que impedem a entrada de saliva e bactérias orais podem levar a resultados endodônticos satisfatórios independente da qualidade da obturação.11 Se comprometido, o espaço endodôntico pode se tornar recontaminado via dissolução do cimento e percolação salivar ocasionando uma nova infecção.12

Se a doença apical persiste na presença de um selamento coronário confiável e obturação adequada, microorganismos resistentes podem ocupar o canal radicular. O microorganismo mais comum é o coccus anaeróbio facultativo, gram positivo E. faecalis.13,14 A capacidade delas em sobreviver em condições extremas, ambientes pobres em nutrientes, resistir a medicações e irrigantes e aderir ao colágeno dentinário torna difícil sua remoção dos canais usando os regimes de desinfecção convencionais.13

Fontes extra-radiculares

Extrusão de material obturador nos tecidos periapicais reduz o prognóstico do tratamento endodôntico.2,15 A natureza tóxica a curto prazo dos cimentos endodônticos é comumente implicada, no entanto, esta toxicidade geralmente diminui após a reação de presa estar completa.16,17 É mais provável que a instrumentação agressiva, associada a sobreobturação, transporte debris infectados para os tecidos perirradiculares onde os microorganismos deslocados proliferem e prejudiquem a cicatrização após a desinfecção química.15 Em ocasiões raras, microorganismos extra-radiculares que escapam às defesas do hospedeiro induzem a infecções apicais persistentes.18 As espécoes Actinomyces spp. e Propionibacterium foram descritas como sendo as mais prevalentes em canais de dentes endodonticamente tratados e contribuem para a formação do impenetrável dos biofilmes extra-radiculares.18

Nessas circunstâncias a incapacidade do retratamento em superar o biofilme perirradicular, material de obturação extruído ou microorganismos perirradiculares resistentes poderiam levar à falha enquanto a cirurgia parendodôntica poderia ser uma opção mais viável.

Avaliação pré-tratamento

Calculando a dificuldade no acesso

A facilidade de ganhar acesso à guta percha precisa ser clinicamente e radiograficamente calculada. Inicialmente, o tipo e a qualidade da restauração coronária precisa ser cuidadosamente examinada.19 Um vedamento coronário resistentente , por si só, tornará difícil o acesso à câmara pulpar, restaurações extra-coronárias ou largas restaurações intracoronárias,, particularmente núcleos pode tornar difícil a orientação da broca corretamente devido à perda dos marcos anatômicos naturais. Estas restaurações podem frequentemente criar um desalinhamento coroa-raiz e esconder um processo patológico subjacente o que justificaria uma completa remoção coronária e avaliação clínica e radiográfica completa da anatomia dentária.20

A presença de pinos aumenta significativamente o risco de lesão iatrogênica (que é fraturas radiculares verticais e perfurações) tornando os dentes irrestauráveis.19-21 A remoção dos tipos de pinos e suas respectivas remoções está fora do escopo deste artigo, mas muito mais frequentemente uma referência é necessária.

Calculando a dificuldade de remoção da guta percha

No exame radiográfico, o padrão da obturação endodôntica precisa ser avaliada com atenção particular à condensação e comprimento da guta percha.6,10,19 Na experiências dos autores, a guta percha é mais facilmente removida quando a obturação é realizada em padrões tecnicamente piores, uma ocorrência comum, do que quando ela é bem condensada e com comprimento adequado.22,23 Isso pode ser devido aos espaços vazios permitirem uma passagem mais fácil dentro do canal e da guta percha que não está no comprimento certo o que significa que existe menos material para ser removido. Contudo, em canais bem obturados, uma segunda opinião deve ser solicitada para a necessidade de uma abordagem retrógrada

Lesões iatrogênicas criadas durante o tratamento endodôntico primário como degrais, instrumentos fraturados e perfurações, bem como morfologias radiculares atípicas ou curvas impedem a remoção da guta percha pelos instrumentos endodônticos. As ferramentas de aprimoramento de imagem de sistemas radiográficos digitais podem ajudar na detecção dessas complicações em doses mais baixas, contudo é importante ter cuidado com a presença delas se nada de anormal é detectado na avaliação inicial.24

Seleção de casos

Os autores recomendam que clínicos não familiarizados selecionem casos apropriados no começo (que são canais retos, sem obstruções intrapulpares) e indiquem para colegas mais experientes de forma apropriada. O RIOTN pode ser uma ferramenta útil para ajudar na avaliação da complexidade do tratamento e na tomada de decisão (Tabela 1)1.

tabela índice restaurativo de necessidade de tratamento lopes odontologia

Ganhando acesso

Uma cavidade de acesso ideal provê vedação coronal estável, mantém uma reseva de solução de irrigação, permite boa visibilidade e o acesso em linha reta a cada orifício.4,6,25 Estes princípios ainda se aplicam ao longo do retratamento endodôntico e portanto qualquer patologia coronária deve ser estabilizada, restaurações defeituosas devem ser refeitas e os dentes devem estar prontos para isolamento.4

O operador precisará decidir previamente ao tratamento se irá realizar o acesso através da restauração existente ou trocá-la inteiramente. O acesso através de coroas pode ser justificado pela presença de margens resistentes e sem a presença e pinos, contudo, a remoção coronária completa é frequentemente recomendada para avaliar a capacidade de restauração do dente, cáries e trincas subjacentes.4,20Fresas diamantadas finas refrigerada com spray ar/água são úteis para cortar através da cerâmica e aquelas de carbeto de tungstênio para desgaste metálico.25 Se a coroa será preservada, a irrigação copiosa com água é essencial para prevenir fraturas na cerâmica, contudo os pacientes devem ser previamente advertidos que elas podem precisar de substituição.25

Após a estabilização, a posição oclusal do acesso cavitário deve ser determinado através do exame da morfologia oclusal.25 A atenção deve ser dada à junção amelocementária (CEJ) como Krasner e Rankou acharam ser a mais confiável referência anatômica para determinar oclusalmente a posição da câmara pulpar.25,26 A “Lei de Concentricidade” deles dita que a câmra está no centro dessa circunferência imaginária ao nível da CEJ (Fig. 1[A])26.

leis do acesso endodôntico lopes odontologia
Fig. 1 – Leis do acesso endodôntico: A – centralidade; B – concentricidade; C – mudança de cor; D – localização do orifício 1; E – localização do orifício 2

É portanto aconselhável examinar o perímero do dente nesse nível com uma sonda Williams, mantendo uma observação mental de sua posição oclusal. O acesso cavitário deve então ser centralmente criado dentro dessa circunferência e a “Lei da Concentricidade empregada para garantir que as dimensões mimetizem aquelas da superfície externa do dente na altura da CEJ e não da superfície oclusal (Fig. 1 [B])26. O operador poderia achar que essa posição é significativamente diferente daquela que é ditada pela topografia oclusal artificial em um dente extensamente restaurado, girovertido ou angulado.25,26

A angulação apropriada e profundiade precisam ser, agora, estabelecidas através do alinhamento da broca paralelamente ao longo eixo do dente e a distância entre a ponta do acesso e o assoalho da câmara pulpar deve ser radiograficamete medida. O operador deve estar consciente que na presença de núcleos de preenchimento, a broca não demonstra a característica de cair na câmara pulpar, ao invés disso, toca diretamente o assoalho. Logo, ligeira pressão deve ser aplicada para cada curso da broca , seguido por inspeção cuidadosa sob magnificação e iluminação para prevenir perfuração da furca. A “Lei da Mudança de Cor” pode ajudar a identificar quando a broca alcançou a distância correta quando o assoalho pulpar parece mais escuro que a restauração ao redor (Fig 1 [C])26. O uso de brocas de pontas arredondadas são aconselhadas para prevenir a formação de degrais e quando a interface assoalho-restauração for alcançado, uma broca segura pode ser usada para desgaste lateral. O isolamento absoluto pode ser adiado até entrar na câmara pulpar para ajudar na orientação da broca.4

Quando no assoalho pulpar, as “Leis de Localização dos Orifícios Radiculares” podem guiar a exploração e descoberta de canais radiculares tratados e esquecidos, tendo em mente que os orifícios estão localizados nos vértices das junções parede-assoalho pulpar (Fig 1 [D e E]).26 Quando um canal é localizado, os restantes podem ser localizados usando o mapa anatômico localisado no assoalho da câmara pulpar ou, em molares mandibulares, as “Leis de Simetria”(Fig. 2).26

leis de simetria do acesso endodôntico lopes odontologia
Fig. 2 – Leis do acesso endodôntico: F – simetria 1; G – simetria 2.

Nos casos onde existe perda da anatomia, através do uso anterior e cauteloso de brocas, a amplicação adequada e iluminação podem ajudar a localizar a entrada dos canais. Canais obturados, mais visíveis devido a coloração laranja claro da guta percha, devem ser identificados primeiro.

Com um selamento coronário resistente, correto posicionamento oclusal e alinhamento da broca, o acesso à obturação endodôntica inicial pode ser obtido de forma conservadora. As leis de acesso de Krasner e Rankow, que são usadas principalmente em dentes não tratados, também podem ser um guia útil para conseguir isso em casos de retratamento (Tabela 2).26

tabela leis do acesso endodôntico lopes odontologia 1

Removendo a guta percha

Passo 1: Remoção bruta da guta percha coronária

Ao alcançar o acesso em linha reta, uma sequência de brocas Gates Glidden ((GG) deverá ser usada para remover de uma a dois terços coronarios da porção principal de Guta Percha dos canais radiculares, dependendo do grau de curvatura, sob isolamento absoluto. A extremidade pontiaguda e o design de corte lateral da cabeça elíptica tornam-na segura e eficiente em tempo para a remoção de guta percha (Fig. 3)27.

gates glidden lopes odontologia
Brocas Gates Glidden. Cabeça com formato elíptico para a ação de corte lateral e marcações de tamanho (1-6) na extremidade do corpo.

Entretanto, ao contrário dos instrumentos de níquel titânio, o aço é mais rígido e suceptível à fratura por flexão, tornando o uso limitado às partes retas do canal.27,28 Ainda que as fraturas ocorram na extremidade final da haste da broca, torções excessivas podem causar fraturas em partes inferiores da haste.27,28 Felizmente, essas brocas são relativamente baratas e fabricadas em 6 diferentes diâmetros crescentes da parte ativa e comprimentos seja em aço inox ou aço carbono, sendo que a última fratura mais facilmente.28 Para esse estágio é recomendado o uso de GG nº3 ou 4 em canais estreitos e GGº4 e 5 para aqueles canais amplos.

Uma radiografia pré-operatória deverá ser usada para calcular o comprimento de trabalho estimado em guta percha apenas nas partes retas dos canais obturados. (Fig. 4a).

remoção de guta percha lopes odontologia
Fig. 4 – Remoção bruta da GP coronal: (a) canal obturado; (B) haste da GG paralela ao eixo longitudinal do dente; (C) condensação lateral da GP e detritos residuais após uso das GG; (D) traços circunferenciais de ação das GG; (E) terço apical de GP intacto.

Este comprimento não deve ultrapassar a curvatura em canais curvos nem o terço apical em canais retos. Com a broca GG com stop posicionado para esse comprimento, a ponta deve então ser repousada diretamente acima do centro da entrada com a haste orientada paralelamente ao eixo longitudinal da respectiva raiz (Fig 4b). Nesse estágio, nenhuma pressão apical é necessária, visto que o calor gerado pela fresa, bem como pela rotação em velocidade total, plastificam a guta percha. Simultaneamente, o peso da peça de mão “sozinha”. Pode ser necessário alguma pressão apical quando a guta percha está bem condensada ou quando os canais estão subinstrumentados. Essa pressão adicional deve ser muito suave para evitar a formação de degrais, perfurações ou fratura do instrumento e se na aplicação é sentido resistência enquanto se está aquém do comprimento desejado, deve-se remover a GG e reavaliar a morfologia radicular e angulação da broca.

A ação de corte lateral das lâminas criam muitos debris e frequentemente condensam a guta percha lateralmente contra as paredes do canal (Fig. 4c). Essa guta remanescente pode ser retirados usando uma sonda endodôntica DG16 e então removidas usando irrigação frequente e movimentos de bicada circunferenciais na guta percha para deixar um caminho reto desobstruído para o seguimento apical de GP (Fig 4D e 4E).

Passo 2: Remoção bruta da GP apical

Limas hedstrom de aço inox devem agora ser utilizadas para remover o corpo de guta dentro do segmento apical do canal radicular. O uso dela, embora demorada, produz menos debris que técnicas rotatórias atuais.29,30 As lâminas semelhantes a espiras de um parafuso, usinadas a partir de um bastão melálico redondo, estão anguladas quase 90º em relação ao eixo longitudinal com uma conicicidade de 2%, dando ao instrumento uma ação de corte vertical durante os movimentos de tração verticais, que são ideais para remoção da GP (Fig 5)31.

limas tipo k e limas hedstrom lopes odontologia
Fig. 5 – Limas tipo K e Hedstrom. Limas tipo K possuem secção transversa quadrada, indicada no cabo, para proporcionar ação de corte durante a cinemática de um quarto de volta. Limas Hedstrom possuem secção transversa circular, indicada no cabo, proporcionando ação de corte longitudinal durante os movimentos de tração.

Movimentos rotatórios inapropriados não são recomendados visto que o diâmetro transversal relativamente reduzido reduz o limite de torsão aumentando o risco de fratura da lima.31,32 Além disso, o processo de usinagem pode levar a variações significativas na eficiência entre marcas diferentes de Hedstrom e por isso apenas limas aprovadas pela Organização Internacional de Normalização (ISO) são recomendadas.31

Difinir todos os instrumentos ao comprimento eletrônico de trabalho de todo o comprimento de guta percha e não todo o canal radicular. Acrescentando 0,5 a 1 mm a essa medida além do ápice radiográfico pode ajudar a remover sobreobturações evitando a necessidade de uma abordágem retrógrada.33 Para criar um caminho inicial para as limas Hedstrom, uma sequência de limas K devem ser usadas com a cinemática de um quarto de volta. A incapacidade da guta percha em proporcionar um selamento hermético dentro do canal ajuda, frequentemente, este processo (6A).34

remoção de guta percha apical lopes odontologia
Fig. 6 – Remoção bruta da GP apical: (a) uma lima tipo K é usada para exploração inicial; (b) lima Hedstrom de tamanho mínimo #25 é inserida dentro de uma porção de 2mm de guta percha. (c) lima Hedstrom com inclinação de 30º em relação à guta percha; (d) guta percha apical removida durante a retirada da lima.

O espaço longitudinal subsequente, que existe lateralmente entre as paredes do canal e a obturação radicular, deve ser alargada até o diâmetro de uma lima 25 para reduzir o risco de fratura da lima durante a remoção da guta percha. Uma Hedstrom de tamanho suficiente, que resista à torção(que são ISO >= 25), podem ser utilizada dentro da trajetória de patência aplicando pressão apical adequada durante o acesso longitudinal (Fig 6b). O operador irá perceber um aumento da resistência à inserção e se não for possível chegar a menos e 2 mm do comprimento eletrônico de trabalho com um diâmetro de 25, a patência pode precisar ser reestabelecida.

Quando no comprimento correto, a lima Hedstrom deve ser inclinada 30° distante da obturação do canal e simultaneamente retirada sob resistência (Fig. 6c). Alterando o caminho de remoção desta maneira força o encaixe íntimo das partes cortante à GP, proporcionando um retenção maior para o seu deslocamento e eventual remoção. Se a lima solta-se facilmente, um tamanho maior pode ser necessário ou vice versa. Isso pode levar várias tentativas com uma sequencia de aumento gradual de limas Hedstrom para se conseguir isso. Na maior parte dos casos, esse segmento apical pode ser rapidamente removido com apenas uma unidade, contudo, se a guta percha teve sido exposta a luz ou ar por longos períodos, ela pode tornar-se quebradiça tornando a recuperação mais fragmentada.35

Ao remover o segmento apical, a ponta da guta percha deverá ser inspecionada se possui uma aparência arredondada que pode significar a remoção do cone principal e progressão para o próximo estágio (Fig 6d). Contudo, se existe uma aparência terminal irregular ou feedback tátil que indique o contrário, mais instrumentação é necessária. Em canais amplos com guta percha de difícil remoção, algumas vezes pode ser útil entrelação duas limas Hedtrom suavemente ao redor da ponta de guta percha. Geralmente os tamanhos de 15 e 20 servirão bem para este processo. Contudo, cuidado é necessário para prevenir sua fratura (Fig. 7).

remoção de guta usando lima hedstrom lopes odontologia
Fig. 7 – Trançando os cabos de duas limas Hedstrom para remoção de porções de GP persistentes.

Passo 3: Remoção fina de guta percha

Apesar da irrigação remover os debris grosseiros ao longo da reinstrumentação, frequentemente sempre ficam pequenos resquícios de guta percha, principalmente, no terço apinal de canais curvos29,36. Solventes endodônticos podem ser um opção útil para dissolver, reduzir e recuperar esses debris residuais se, de outro modo, for mecanicamente difícil. Felizmente a guta percha é solúvel em uma larga variedade de solventes orgânicos, incluindo clorofórmio, tetracloroetileno, xileno, halotano e eucaliptol, terebintina e óleo de laranja.37 Solventes são melhores reservados para essa parte uma vez que o uso durante a remoção grosseira frequente leva ao manchamento das paredes do canal ao longo de seu comprimento devido aos resíduo de guta percha.

Ao longo dos anos, clorofórmio tem sido o solvente de escolha pela capacidade dele em dissolver a guta percha rapidamente em um líquido ralo, contudo, existe um interesse renovado em achar alternativas devido a suas potenciais propriedades carcinogênicas38-41. Além disso, os efeitos colaterais hepatotóxicos dos halotanos também impedem seu uso, e a falha dos óleos de terebintina em dissolver a guta em temperatura ambiente tornam seu uso impraticável no consultório.42,43 Das substâncias restantes, o tetracloroetileno, xileno, eucaliptol e óleos de laranja tem se mostrado mais biocompatíveis enquanto ainda possuem propriedades solventes úteis em 37°C.41 Infelizmente, a falta de modelos de pesquisa padronizados tornam difícil concluir qual é superior, com os estudos atuais produzindo resultados conflitantes. Contudo, o mais reconhecido pode ser o tetracloroetileno, disponível comercialmente como EndosolvE.

Uma agulha de calibre 27 precisa ser posicionada passivamente dentro do canal para expulsar solvente em cada canal radicular. Recomenda-se limpeza com irrigação e aspiração repetidas vezes, pois cria-se pressões que promovem a remoção de materiais obturadores. Além disso, o volume depositado no canal deve encher o canal até o assoalho da câmara pulpar. O solvente deve ser agitado usando limas manuais e o cone de papel mais largo e que se adapte deve ser inserido dentro do canal para absorver o material endodôntico dissolvido (Fig 8a).

remoção fina de guta percha com solventes e pontas de papel absorvente lopes odontologia
Fig. 8 – Remoção minusciosa da GP apical: (a) uma ponta de papel de diâmetro compatível é usada para secar o canal saturado com solvente. (b) resíduos remanescentes de GP removidos

Após a retirada, a presença de guta percha residual será claramente visível devido à coloração alaranjada na ponta do cone de papel encharcado. Esse procedimento deve ser repetido circunferencialmente até que não seja observada descoloramento na presença de um canal com cheio de solvente (Fig 8b).

Marcadores adicionais de conclusão incluem ganhar patência apical usando limas K pré-curvadas tamanho 6-8. Isso vai permitir ao operador chegar a leitura 0 no localizador apical eletrônico, estabelecer um caminho para a modelagem do canal e desinfecção químico-mecânica.44 Obstruções comuns podem ser um resultado de guta percha residuais, tampões dentinários, formação de degraus ou fraturas de lima que poderiam requerer uma combinação de meios mecanicos (limas pre-curvadas e ultrassom) e mecânicos (solventes, agentes quelantes e lubrificantes) para conseguir com ampliação.

Subsequentemente, o restante do canal deve ser reinstrumentado usando a técnica mecânica preferida, completamente desinfectado e então obturado depois de enxaguado por uma solução de 17% de ácido etilenodiaminotetraacético (EDTA) seguido por NaOCl.45 Esse regime irrigante tem demonstrado melhorar a cicatrização periapical em casos de retratamento com uma justificativa que ele remove a camada de esfregaço restante, contendo matéria orgânica e inorgânica infectada, solventes e materiais obturadores, solventes que é criado ao longo do retratamento endodôntico.45

Conclusão

A estratética acima proposta é uma das várias que pretendem ajudar os clínicos em superar os difíceis aspectos do retratamento que frequentemente se resumem em conseguir o acesso endodôntico e remoção da guta percha antiga. Outros métodos de remoção de guta percha incluem a série Protaper D, sistemas reciprocantes e o uso de calor. Contudo, é importante perceber que a desinfecção química subsequente com NaOCl é a chave que elimina e previne a infecção adicional e é a adequada remoção da guta percha que facilita esse processo.

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BRITISH

Como estou publicando isso na Páscoa, pois é “proibido” trabalhar, desejo que vocês tenham uma boa Páscoa em família, bons chocolates e comemorações religiosas! Queria pedir um favorzinho também… Se você chegou até aqui e tem algum artigo odontológico que você gostaria que alguém traduzisse (você não pode ter urgência ok?), por que você não me envia para ver se é possível? Eu ficaria muito agradecido 😎 Eu te ajudo e treino mais um pouquinho o meu Inglês.

Tenham um fim de semana e carreira brilhantes!

Um forte abraço,

Marcos Lopes

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É cirurgião dentista graduado em 2014 pela UFVJM. Atualmente tem o seu foco em Dentística e vai se especializar em Ortodontia. Adota a filosofia da StyleItaliano para as áreas de Dentística e Endodontia. Aficionado por fotografia, café e uma boa prosa.

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